FlatFoot[1]

Avaliação do uso do Enxerto Homólogo na Osteotomia de Alongamento do Calcâneo para Tratamento do Pé plano valgo neurológico

Rodrigo A. Góes dos Santos

Celso Belfort Rizzi Junior
Stélio Galvão
Márcio Garcia Cunha
Maurício Almeida Jesus Rangel
Ricardo Carneiro Rodrigues

Resumo

Os autores apresentam os resultados de um estudo retrospectivo em 17 pacientes (28 casos) com diagnóstico de pé plano valgo neurológico, os quais foram submetidos a tratamento cirúrgico aberto com osteotomia de alongamento do calcâneo (técnica de Evans II), com a utilização de enxerto homólogo de Banco de Tecidos Músculo-esqueléticos.
Analisamos parâmetros como a variação do ângulo de Meary pré e pós-operatório (radiografia em perfil com carga), a presença de dor, a incorporação do enxerto homólogo, a presença de calosidades, a necessidade de utilização de órteses no seguimento pósoperatório, e o grau de satisfação dos pacientes. Consideramos através destes critérios que obtivemos 60,7% de bons resultados, 25% de regulares e 14,3% de resultados ruins. Relatamos 85,7% de satisfação dos pacientes com o procedimento cirúrgico.
Os autores concluíram que esta técnica de osteotomia proporcionou alta taxa de bons resultados e com alto índice de satisfação dos pacientes. Entretanto, o resultado clínico e funcional final nem sempre é compatível com alterações angulares radiográficas evidenciadas no exame pós operatório.
Unitermos: Pé plano valgo, Osteotomia, Alongamento do calcâneo, Evans II.

Trabalho realizado no Grupo de Ortopedia Infantil do Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia (INTO).
1. Médico residente do INTO
2. Médico do Grupo de Ortopedia Infantil do INTO
3. Médico chefe do Grupo de Ortopedia Infantil do INTO
4. Médico do serviço de Ortopedia Pediátrica da ABBR.

INTRODUÇÃO

Durante a evolução do homem, o pé abdicou da função da preensão e passou a ser um órgão de apoio e suporte de carga(3).
A fim de suportarem carga e transmitirem força ao corpo durante a marcha, os ossos e as estruturas ligamentares, com destaque para a fáscia  lantar(4), travam-se e destravam-se durante as diversas fases da marcha. A fáscia plantar possui um papel relevante na etiologia do pé plano. É a responsável pelo suporte do arco longitudinal medial durante o repouso. A musculatura fornece suporte ao arco, porém somente durante o apoio do membro(4).

O arco longitudinal normal se desenvolve na maioria das crianças entre os três e os cinco anos de idade, mas em 4% da população o pé plano persiste até os 10 anos(10,17).

Esta diminuição da altura do arco longitudinal plantar é genericamente chamada de pé plano. Se a depressão do arco é acompanhada de eversão do retropé e abdução do antepé, denomina-se de pé plano valgo(10).

Neste tipo de deformidade, várias alterações anatômicas estão presentes: o posicionamento em valgo do calcâneo, a subluxação da articulação subtalar com deslizamento do tálus no sentido medial e plantar, a eversão do retropé, abdução e supinação do antepé e a presença ou não de encurtamento do tendão calcâneo(10,19). A coluna lateral do pé também está encurtada quando comparada com a coluna medial, isso pode ocorrer de forma verdadeira ou relativa. O encurtamento relativo está relacionado a subluxação da articulação talonavicular.

O estudo do alinhamento do antepé é necessário para diferenciação entre o pé plano valgo e o chamado pé em “serpentina”. Não existe na literatura uma informação exata de quanta adução do antepé é necessária para se caracterizar um pé em “serpentina”, um valgo de retropé associado a uma adução do antepé(13,8). A incapacidade funcional do pé plano normalmente está relacionada a dor durante a marcha, formação de calosidades, a ulcerações e/ou a combinação desses sinais e sintomas(2,8,7,13).

Existem várias etiologias para a formação de um pé plano valgo patológico. Dividimos estes em flexíveis ou rígidos, congênitos ou adquiridos. Os pés planos flexíveis são caracterizados pela formação do arco longitudinal quando o pé se encontra sem apoio e o desaparecimento desse mesmo arco quando o pé está apoiado. Nos pés planos rígidos não visualizamos a formação do arco, mesmo com o pé sem carga, acompanhado na maioria desses casos com a rigidez da articulação subtalar, e podendo também estar associado ao encurtamento do tendão de Aquiles(10,18).

O pé plano valgo adquirido de origem neurológica é mais comumente encontrado nos casos de Paralisia Cerebral do tipo Diplegia espástica. Na Mielomeningocele também podemos encontrar com frequência pacientes com esta deformidade(20).

A deformidade em valgo do retropé é mais grave quando associada a um desequilíbrio muscular dinâmico, entre os eversores e inversores do pé, isto é, os músculos fibulares são espásticos e fortes, e os músculos tibiais anterior e posterior são inativos ou fracos(20).

O método radiográfico é útil na avaliação do pé plano valgo, mas de difícil interpretação. As radiografias devem ser obtidas preferencialmente com o paciente em apoio monopodálico, sendo uma incidência radiográfica por vez. Na incidência em perfil traça-se uma linha que passa sobre o eixo longitudinal do colo do tálus e o primeiro metatarso – linha de Meary-Tomeno(16).

A quebra plantar desta linha representa um colapso do pé, com deformidade em valgo. Quanto maior o ângulo formado pelas duas linhas, maior a deformidade. Segundo Bordelon(3),  ângulos de 1 a 15 graus correspondem à deformidade leve; de 16 a 30 graus, deformidade moderada; e acima de 30 graus, deformidade grave.

Aferimos também o ângulo entre o calcâneo e o solo, assim como entre o tálus e o solo. Na incidência em antero-posterior (AP), medimos os ângulos calcâneo-tálus, tálus-1° metatarsiano e observamos o comprimento entre as colunas medial e lateral do pé.

Várias opções para terapêuticas podem ser propostas para o tratamento do pé plano valgo sintomático. Iniciando pelo tratamento não cirúrgico, como a utilização de palmilhas ortopédicas ou órteses curtas, passando pelas cirurgias corretivas que envolvem correção de partes moles, e finalmente os procedimentos ósseos, as osteotomias e as artrodeses(2,13).

Pés rígidos ou associados a deformidades graves toleram mal o uso de palmilhas ou órteses, levando normalmente a rápida destruição do calçado(13).

A artrodese, seja ela única (subtalar) ou tripla, é o procedimento ósseo mais difundido em nosso meio. Apresenta bons resultados a curto prazo, mas a maioria dos trabalhos a longo prazo demonstram a ocorrência de quadros degenerativos precoces em articulações adjacentes, devido a transferência do estresse para estas articulações móveis(2,13).

O trabalho com maior seguimento de bons resultados para o tratamento do pé plano valgo foi escrito por Evans(6), utilizando como técnica a osteotomia de alongamento da coluna lateral do pé. Entretanto, Evans(6) acreditava que não conseguiria os mesmos bons resultados em pacientes com desequilíbrio muscular, por isso contraindicava este procedimento cirúrgico para pacientes com Paralisia Cerebral (PC) e Mielomeningocele.

Foi apenas após o trabalho escrito por Mosca em 1995(12), que esta técnica se popularizou e se difundiu entre os ortopedistas.

A técnica analisada neste estudo utiliza o enxerto homólogo de Banco de Tecidos Músculo-esqueléticos, e tem como principais vantagens, a menor morbidade (no sítio doador), a preservação dos movimentos do pé (em contraste com técnicas como as artrodeses), e o realinhamento e equilíbrio do arco longitudinal do pé, facilitando adaptação do pé para a marcha.

MATERIAL E MÉTODOS

No período entre março de 2000 e novembro de 2003, o serviço de Ortopedia Pediátrica do Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia (INTO-HTO)  realizou, em 17 pacientes (28 casos), portadores de patologias neurológicas, e diagnóstico secundário de pé plano valgo, a osteotomia de alongamento do calcâneo (técnica de Evans II), com a utilização de enxerto homólogo de Banco de tecidos músculoesqueléticos do INTO-HTO.

Quanto ao sexo, foram 11 (64,7%) do masculino e seis (35,3%) do feminino; 11 pacientes (64,7%) eram brancos e seis (35,3%) negros. Em relação ao lado, três (17,6%) pacientes tiveram o pé direito acometido, três (17,6%) o esquerdo e 11 (64,8%) eram bilaterais. A média de idade foi de 10,8 anos, variando de seis a 21 anos.

Quanto a classificação de Bordelon(3), deformidade leve (1º a 15º), foi encontrada em sete pés (25%); moderada (16º a 30º) em 13 (46,4%); e grave (>30º) em oito pés (28,6%). O principal diagnóstico de base foi Paralisia Cerebral, presente em 13 pacientes (76,4%), e a diplegia foi o diagnóstico topográfico mais freqüente com 11 casos (84,6% dos casos de PC). Dois pacientes (11,7%) tinham diagnóstico de Mielomeningocele (nível lombar baixo), um de Síndrome de Down (5,8%) e outro (5,8%) com seqüela de pé torto congênito. Procedimentos associados, como tenotomias (psoas, adutores, isquiotibias), alongamento do tendão de Aquiles, e osteotomia derrotatória da tíbia, foram realizados simultaneamente em 15 casos.

Os pacientes foram avaliados de forma retrospectiva. Realizamos estudo radiográfico (AP e perfil com carga e AP e oblíqua sem carga), para aferição dos ângulos e avaliação da incorporação do enxerto homólogo. Dentre os ângulos avaliados, o de Meary (Talo-1º metatarso) nos pareceu o mais importante e fidedigno para quantificar a deformidade, sendo por tanto o adotado (Figura 1). Este é o menos afetado por alterações secundárias ao nível do antepé. O angulo calcâneo-solo pode ser afetado no estudo pós operatório devido a colocação do enxerto ósseo nas margens corticais plantares.

Pacientes com acompanhamento pós operatório inferior a 12 meses foram excluídos do estudo. Não existe uma padronização na literatura para a avaliação clínica e ou radiológica do pé plano valgo. Os  parâmetros analisados nesta série, que nos parecem mais fidedignos para uma avaliação foram:  1) A variação do Ângulo de Meary pré e pós operatório (radiografias em perfil do pé com carga) (Figura 1); 2) A presença ou ausência de dor no pós  peratório; 3).

A incorporação do enxerto homólogo; 4) A presença de calosidades nos pés na evolução pós operatória; 5) A necessidade ou não da utilização de órteses no pós operatório; e 6) O grau de satisfação dos pacintes com o resultado obtido. Os resultados foram pontuados e classificados em Bom (17 = 60,7%), Regular (7 = 25%), e Ruim (4 = 14,28%), conforme demonstra a Tabela 3.

TÉCNICA CIRÚRGICA:

O paciente é colocado sobre uma mesa operatória, em decúbito dorsal, com um coxim sob a região glútea ipsilateral, com objetivo de proporcionar uma melhor exposição da face lateral do pé. Instalado manguito pneumático na raiz da coxa, e insuflado a 280 mmHg de pressão.

Segue-se a realização de um acesso longitudinal, na face lateral do pé, inframaleolar e sobre o calcâneo, de cerca de 5 cm de extensão, proximal à articulação calcâneo-cubóidea. Cuidado especial foi destinado ao nervo sural e aos tendões dos fibulares.

Após dissecção por planos, realiza-se a osteotomia do calcâneo, transversa, cerca de 1,5 cm proximal à articulação calcâneocubóidea, tendo-se o cuidado de realizá-la entre a faceta anterior e medial do calcâneo.

Com o auxílio do afastador tipo “spreader” (fios Kirschner ou afastador de Evans), faz-se a abertura do foco da osteotomia, e a inserção do enxerto homólogo (proveniente do Banco de Tecidos Músculo-esqueléticos do INTOHTO) (Figura 3). Utilizamos Enxerto Ósseo proveniente de doador vivo em seis  asos, e de doador cadáver em 22 casos; previamente fracionado e modelado para o local. Realiza-se a impacção do enxerto. Nos casos avaliados não  utilizamos a fixação primária.

Imediatamente, visualizamos a correção do arco longitudinal medial plantar do pé.
Realizado fechamento do subcutâneo e da pele, curativo estéril, e imobilização com  aparelho gessado suro-podálico (de acordo com as demais  deformidades corrigidas), mantido por quatro semanas.. Acompanhamento em caráter ambulatorial a cada dois meses.

RESULTADOS

Apesar de não haver uma descrição de uma escala de avaliação específica para o tratamento cirúrgico do pé plano valgo, dentro dos parâmetros por nós avaliados (variação do ângulo de Meary, dor, calosidade, incorporação do enxerto, utilização de órtese, e grau de satisfação), obtivemos 60,7% de bons resultados, 25% de resultados regulares, e ainda 14,3% de resultados ruins. A variação média do ângulo de Meary foi de 8,67º, sendo 33º a maior variação angular. A maior deformidade medida neste ângulo foi 48º. Em quatro casos (14,2%) houve piora da deformidade angular e  em outros dois (7,1%), o ângulo não se alterou. Em 67,8% (19 casos), a alteração angular variou de um a 20º, e em três casos essa variação foi superior a 20º. O enxerto homólogo foi considerado incorporado em 27 casos (96,42%), sendo este proveniente de doador cadáver em 22 casos (78,6%) e doador vivo.

Em apenas três (10,7%) dos 28 casos, a dor esteve presente na evolução pós-operatória, dificultando a marcha dos pacientes; em 25 casos (89,3%) a dor não foi relatada. Nenhum dos 28 pés avaliados apresentou calosidades no seguimento. Em 15 casos (53,6%) foi necessária a utilização de órteses tipo AFO (ankle-footortese) no pós operatório, e em 13 (46,4%) esta não foi necessária. Obtivemos 85,7% de satisfação dos pacientes.

O tempo de seguimento médio no pósoperatório foi de 30,8 meses, variando de 12 a 55 meses.  A complicação mais freqüente foi a deformidade em valgo residual do tornozelo, presente em 39,3% dos casos, o que não necessariamente está relacionado com a falha na técnica, e sim a avaliação clínica e  radiográfica préoperatória.

DISCUSSÃO

As indicações parar osteotomia de alongamento do calcâneo, ou para qualquer procedimento corretivo nos pés planos valgos, devem ser limitadas aos  pacientes que não obtiveram melhora com tratamento conservador e aos que apresentam dor, calosidades e/ou ulcerações sob o tálus que esteja fixo em flexão plantar. Deve se ter em mente, que estes pacientes também podem apresentar contratura associada do tendão de Aquiles, os quais devem ser alongados de forma simultânea(13). Numerosos procedimentos cirúrgicos têm sido propostos durante o último século para corrigir o pé plano. Incluem-se as ressecções ósseas, as osteotomias, as artrodeses de uma ou mais articulações e a interposição de osso ou outros materiais, como “silastic” ou cimento osseo, ao nível do seio do tarso. A maioria desses procedimentos têm sido abandonado com o passar do tempo, porque falham ou em aliviar os sintomas ou em corrigir ou até em manter a correção da deformidade, além disso, a longo prazo também podem gerar processos degenerativos em outras articulações do pé e tornozelo(13).

Theologis(22) utilizou palmilhas de Helfet em crianças que apresentavam valgo excessivo do calcanhar, por 18 a 36 meses, com idades variando de três a 12 anos. O desgaste nos sapatos diminuiu em 44 das 52 crianças. Seis em nove pacientes com história de dor melhoraram dos sintomas. Melhora na altura do arco não foi testada neste estudo. Os autores reconhecem que estudos prévios têm mostrado claramente que palmilhas não influenciam a história natural do desenvolvimento do arco medial plantar.

A osteotomia posterior de deslizamento medial do calcâneo pode melhorar a aparência clínica do valgo do retropé, mas não corrige a deformidade do complexo articular subtalar(13).

A osteotomia de alongamento do calcâneo, originalmento descrita por Evans(6), tem demostrado corrigir todos os  componentes da deformidade do complexo subtalar, o valgo do retropé, aliviar os sintomas e teoricamente proteger o tornozelo e as articulações mediotársicas de degeneração artrósica precoce(6,13).

Mosca(12), em 1995, descreveu uma modificação da osteotomia de alongameno do calcâneo descrita por Evans(6), corrigindo 31 pés sintomáticos com deformidades graves do retropé em valgo em 20 crianças com diversas etiologias, sendo a maioria (26) de origem neuromuscular.

Em 24 pés foi por ele utilizado enxerto homólogo, em outros sete, utilizou enxerto autólogo. Somente um pé era pé plano flexível com tendão de Aquiles curto associado; no entanto, o procedimento mostrou ser eficaz na correção de deformidades graves e sintomáticas em valgo do retropé, eliminando os sinais e sintomas
associados à deformidade (dor e calosidades deixaram de existir em todos os casos), e teoricamente evitando uma artrose degenerativa futura. O autor não identificou em seu estudo uma correlação específica entre as medidas radiológicas e resultados clínicos finais.

Andreacchio(2), defende a técnica de osteotomia de alongamento em relação à artrodese subtalar quando a deformidade é moderada e flexível, pois preserva a mobilidade do pé. A presevação da mobilidade da articulação subtalar, segundo os autores, reduz a progressão futura para uma artrose degenerativa. Os autores advogam a técnica cirúrgica de artrodese para os casos de pacientes não deambuladores, com deformidade severa e com deformidades anatômicas associadas. Neste estudo, as principais complicações foram a pseudoartrose e a hipercorreção. Como demonstrado por  Mosca(12), concluíram que medidas radiográficas da deformidade não refletem o resultado clínico e funcional dos pacientes no seguimento.

Recentemente, Ragab, Stewart e Cooperman(14) estudaram 1056 calcâneos de 528 cadáveres humanos, realizando a osteotomia de alongamento da coluna lateral do pé, como descrito por Evans(6) e Mosca(12). Observaram uma grande incidência de uma confluência entre a faceta média e a anterior do calcâneo. Concuíram que a osteotomia, mesmo quando realizada de forma adequada, pode violar a articulação subtalar, alterando a sua congruência, o que a longo prazo, pode provocar a deteriorização articular. O ponto entre a faceta média e a faceta anterior do calcâneo é o local ideal para a realização desta osteotomia, porém durante o estudo em cadáveres, apenas 63% das osteotomias ocorreu no local adequado. Advertem da necessidade de se ter  prudência ao se indicar a osteotomia de alongamento do calcâneo em pacientes portadores de pés planos e que tem uma vida ativa.

Faria(7), avaliou 10 pacientes (18 pés) tratados com a osteotomia de alongamento do calcâneo, com tempo médio de seguimento de 11,5 anos (após a maturidade esquelética). Nove pacientes apresentavam pé plano valgo idiopático. Concluiu que seus melhores resultados ocorreram nos casos operados antes do aparecimento do “bico” talar anterior ou outras alterações artrósicas precoces, e que as correções obtidas tendem a manter-se estáveis com o  crescimento (até a maturidade esquelética), sem ocasionar uma limitação na mobilidade dos pés.

Miranda(11) descreveu uma técnica pessoal para o tratamento cirúrgico do pé plano valgo, onde utiliza cimento acrílico (metilmetacrilato) para realizar uma artroplastia subastragalina. Foram operados 114 pacientes com etiologias
diversas, a média de idade foi 19 anos (8 a 63). O autor afirma que esta técnica é uma boa opção de tratamento, e preserva a mobilidade do pé.

Em grande revisão bibliográfica, Andreacchio(2) julgou que a artrodese subtalar é bem suscedida no tratamento da deformidade em pé plano valgo em crianças com PC(1,9).Entretanto, os resultados do estudo sugerem que o alongamento da coluna lateral pode ser superior do que à artrodese subtalar  para os casos flexíveis, porque o alongamento do calcâneo preserva o movimento da articulação subtalar, reduzindo assim a incidência de artrite degenerativa tardia. A fusão da articulação subtalar é mais apropriada no tratamento das deformidades graves em pacientes com PC. Assim como a artrodese subtalar, a artrodese tripla é recomendada para casos rígidos e severos de deformidade em pé plano valgo(2).

Danko(5), em estudo recente, comparou o alongamento da coluna lateral do pé através da articulação calcâneo-cubóide, via artrodese, ao alongamento através do colo do calcâneo. Comparou também, o uso do enxerto homólogo ao autólogo. Concluiu após avaliação de 124  crianças (126 pés), que ocorreu um alto índice de falha cirúrgica com o uso de enxerto homólogo nas artrodeses calcâneo-cubóide (29,3%), falha esta devida ao colapso do enxerto homólogo. Este índice pode ser reduzido se o alongamento for realizado ao nível do colo do calcâneo(5,14).

Como Mosca(12) e Andreacchio(2), não conseguimos estabelecer uma correlação exata entre as variações angulares no estudo radiográfico e o aspecto clínico da deformidade. Conforme descrito por Ragab(14), existe uma grande dificuldade em definir o local exato da realização da osteotomia, e assim  provocar uma lesão articular, o que nos alerta para a possibilidade futura de processos degenerativos também em nossos casos.

O enxerto homólogo e a técnica de osteotomia de alongamento do calcâneo se mostraram eficientes nos critérios por nós avaliados até o momento, principalmente levando em consideração o alto índice de satisfação dos pacientes e a ausência de morbidade relacionada ao sítio doador do enxerto ósseo. Apesar do curto tempo de seguimento, quando comparado ao estudo apresentado por Faria(7), não observamos recidiva da deformidade ou perda da mobilidade do pé.

CONCLUSÃO

A utilização de enxerto homólogo para realização da osteotomia de alongamento da 52 R. Into, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, p. 1-60, maio/ago. 2004
coluna lateral do calcâneo para a correção da deformidade do pé plano valgo em pacientes com distúrbios neurológicos, demonstrou ser uma boa opção de tratamento, com alto índice de satisfação dos pacientes, e baixo índice de complicações. O resultado clínico e funcional nem sempre é compatível com alterações angulares radiográficas finais significativas (Ângulo de Meary).

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Desde 2012, o Dr. Rodrigo Góes é parceiro do Instituto Reação, fundado pelo medalhista olímpico Flávio Canto. Integrando o programa Reação Saúde, o [...]

rodrigo Lesões em esportes náuticos – do surfe à vela

O número de esportes praticados no mar, em lagos ou rios cresce a cada dia com esportistas aventureiros em busca [...]

oficial PB A participação do Brasil no Festival Olímpico da Juventude da Austrália

O Festival Olímpico da Juventude da Austrália é um dos maiores eventos esportivos para jovens do mundo e contou com [...]

doping-area Lista de substâncias proibidas de 2012 pelo Código Mundial Antidoping

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Dr. Rodrigo e os anéis olímpicos Olimpismo e Movimento olímpico

Movimento Olímpico O esporte como instrumento de transformação social Um movimento com base social em prol do desenvolvimento do Homem [...]

Rodrigo e Belfort e thales MMA e as suas principais lesões

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O “experiente” Filipe Marcelino, de 5 anos, corre desde os 3 anos. “Sempre trago os meus primos para participar comigo”, conta. Foto: Guto Maia Crianças correm como “gente grande” em pistas de atletismo

Revista O FLU, 09/12/2012. Por: Juliana Dias Ferreira 09/12/2012. Atletas mirins dão show em corridas infantis, que estão virando tradição [...]

lca Avaliação dos mecanismos de lesão do ligamento cruzado anterior no futebol

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tendao Análise Epidemiológica das Rupturas do Tendão Patelar

Rodrigo Araujo Góes dos Santos¹, Luiz Antonio Martins Vieira², Carlos Humberto V. Victoria³, Diogo Assis Cals de Oliveira³ RESUMO Objetivo: [...]

joelho Análise epidemiológica das rupturas do ligamento cruzado anterior em pacientes atendidos no Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia.

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site Avaliação da importância do Diabetes mellitus na incidência da Doença de Dupuytren

Renato Henriques Tavares1, Rodrigo Araújo Góes dos Santos2 Anderson Vieira Monteiro3,Saulo Fontes de Almeida4. RESUMO A contratura de Dupuytren é [...]

femur Avaliação da progressão do deslizamento após fixação “in situ” para tratamento do escorregamento epifisário proximal do fêmur.

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Moramos em um país tropical, onde prevalecem os esportes praticados na areia da praia ou no mar, como o vôlei [...]

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  Os Jogos Olímpicos de verão é o maior evento esportivo do mundo e ocorre a cada 4 anos, envolvendo [...]

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Como todos vocês sabem, destinei toda minha vida ao esporte, inicialmente como atleta, depois como torcedor curioso e estudioso e [...]

bruno e rodrigo Amigos e sócios do Rio Cricket nas Olimpíadas de Londres

Nos gramados do Rio Cricket Associação Atlética eles cresceram juntos e alimentaram o mesmo sonho de um dia serem profissionais [...]

Rodrigo FLU Rumo às Olimpíadas

O niteroiense Rodrigo Góes viajou para Londres no início de julho para integrar a equipe de médicos da Comissão Olímpica [...]

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No passado, os pacientes que apresentavam quadro de dor no joelho, colocava-se a culpa nos meniscos. Chamavam de “doença do [...]

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A seleção olímpica de judô fez os últimos treinos no Brasil antes dos Jogos de Londres, no dojô Pedro Gama [...]

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No último dia 15 de abril aconteceu na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) o módulo de Lesões no [...]

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O encontro anual da American Academy of Orthopaedics Surgery (AAOS), o maior congresso de ortopedia do mundo, aconteceu em favereiro, [...]

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Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), vivemos a década da gonartrose. Para muitos, ter essa doença é apenas uma [...]

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dr-rodrigo-transplante-menisco Entenda o transplante de menisco

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